Era verão mas parecia inverno: ainda não tinham tocado as 9 badaladas mas já era noite cerrada e chovia por todos os dias de calor que já tinham aparecido. Ela descia a rua com mil e um cuidados para não cair dos seus saltos altos nem perder nenhum livro quando o viu. Mentalmente reviu toda a sua indumentária e conseguiu libertar uma mão para passar os dedos pelos seus longos cabelos escuros. Dele só sabia que frequentava a mesma esplanada que ela nas tardes de domingo, não conseguiu aprender mais nada nas vezes em que os seus olhares se cruzaram.
Ele estava a conversar com um amigo, "Nem me vai ver", pensou. Abrandou o passo para ter tempo de lhe sentir o perfume bem discretamente, mas três segundos bastaram para perder toda a elegância e compostura. Três segundos foram o suficiente para escorregar na calçada erodida, protagonizar a maior queda do ano e espalhar todos os livros pelo chão molhado.
- Estás bem? Magoaste-te?
- Sim, sim, não foi nada!
- Mesmo?
- Sim, estou óptima. Tirando o meu ego, que neste momento está mais pequeno que uma ervilha...
- Não te preocupes, com esses sapatos eu tinha mandado um tralho bem maior!
- É um bom ponto de vista... Obrigada e desculpem ter interrompido a conversa.
Recomeçou a caminhada enquanto agradecia a todos os deuses, santos e karmas por ser noite escura e não se ter notado a rapidez com que corou. Tanto sítio para cair e tinha de ser ali! Tanta gente no mundo e tinham de ser aqueles dois a assistir, os misteriosos olhos azuis e um qualquer amigo que ficou em silêncio a assistir ao espectáculo.
- Espera! Como te chamas?
Virou a cara e reconheceu aquele olhar. Sim, ele também tinha memorizado os seus olhos verdes!..
- Francisca. - sorriu.
- Eu sou o João. Dás-me o teu número? - deixou escapar - Só para confirmar que não te magoaste mesmo... - tentou disfarçar.
- Não te preocupes, uma das minhas colegas de casa é médica!
Lançou-lhe um sorriso discreto e começou a andar.
- Espera! Diz-me pelo menos o teu curso...
- Biologia.
- Se eu perguntar pela Francisca sabem que és tu?
- Se perguntares às pessoas certas...
- Como assim?
- É que na verdade o meu nome não é Francisca...
Dobrou a esquina e permitiu-se sorrir mais honestamente, rir até! Podia ser inverno em Julho, podia ter um pé dorido e as calças sujas, mas a noite tinha acabado de se tornar perfeita.
Escrito no meu primeiro CIN, em que percebi que há uma Diana em cada estudante de medicina... Ah, e também reparei que certas pessoas simplesmente não relaxam nem percebem que estão sentados ao lado de menores de 30.
5 comentários:
tb quero um joão que se certifique que tou bem!! *.* awsome!!! brutalisssimo!
bem, como hei-de eu mostrar o gozo que me dá ler mais uma das tuas obras...? =)
pah, como já é costume propões-me uma história simples, tamanho q.b. (pequeno, mas lindo), os olhos deliciam-se com este "doce", que até sabor e aroma parece ter... eheh
e mais uma vez, sentimos que estamos lá também, uns sendo o João, querendo ser aquele rapaz preocupado com uma rapariga bela, outras a Francisca, querendo ser aquela rapariga a quem o tal rapaz especial se dirige com palavras doces... =)
Resumindo: divinal!!!
Quando cheguei à parte dos dois indíviduos que vinham a falar o meu cérebro gritou: Horas antropológicas!!!
Mas afinal não.
Hmpf.
Exijo um texto sobre horas antropológicas. Acho que já fazem parte da mitologia em que acreditamos.
Eu também quero um texto sobre horas antropológicas =P
P.S. Gostei muito da história como gosto sempre =)
Eu não protagonizei nenhuma história envolvendo tal horário... Mas desafio aceite. ;D
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