sábado, 12 de junho de 2010

O mix de realidade e ficção.

Era verão mas parecia inverno: ainda não tinham tocado as 9 badaladas mas já era noite cerrada e chovia por todos os dias de calor que já tinham aparecido. Ela descia a rua com mil e um cuidados para não cair dos seus saltos altos nem perder nenhum livro quando o viu. Mentalmente reviu toda a sua indumentária e conseguiu libertar uma mão para passar os dedos pelos seus longos cabelos escuros. Dele só sabia que frequentava a mesma esplanada que ela nas tardes de domingo, não conseguiu aprender mais nada nas vezes em que os seus olhares se cruzaram.
Ele estava a conversar com um amigo, "Nem me vai ver", pensou. Abrandou o passo para ter tempo de lhe sentir o perfume bem discretamente, mas três segundos bastaram para perder toda a elegância e compostura. Três segundos foram o suficiente para escorregar na calçada erodida, protagonizar a maior queda do ano e espalhar todos os livros pelo chão molhado.
- Estás bem? Magoaste-te?
- Sim, sim, não foi nada!
- Mesmo?
- Sim, estou óptima. Tirando o meu ego, que neste momento está mais pequeno que uma ervilha...
- Não te preocupes, com esses sapatos eu tinha mandado um tralho bem maior!
- É um bom ponto de vista... Obrigada e desculpem ter interrompido a conversa.
Recomeçou a caminhada enquanto agradecia a todos os deuses, santos e karmas por ser noite escura e não se  ter notado a rapidez com que corou. Tanto sítio para cair e tinha de ser ali! Tanta gente no mundo e tinham de ser aqueles dois a assistir, os misteriosos olhos azuis e um qualquer amigo que ficou em silêncio a assistir ao espectáculo.
- Espera! Como te chamas?
Virou a cara e reconheceu aquele olhar. Sim, ele também tinha memorizado os seus olhos verdes!..
- Francisca. - sorriu.
- Eu sou o João. Dás-me o teu número? - deixou escapar - Só para confirmar que não te magoaste mesmo... - tentou disfarçar.
- Não te preocupes, uma das minhas colegas de casa é médica!
Lançou-lhe um sorriso discreto e começou a andar.
- Espera! Diz-me pelo menos o teu curso...
- Biologia.
- Se eu perguntar pela Francisca sabem que és tu?
- Se perguntares às pessoas certas...
- Como assim?
- É que na verdade o meu nome não é Francisca...
Dobrou a esquina e permitiu-se sorrir mais honestamente, rir até! Podia ser inverno em Julho, podia ter um pé dorido e as calças sujas, mas a noite tinha acabado de se tornar perfeita.


Escrito no meu primeiro CIN, em que percebi que há uma Diana em cada estudante de medicina... Ah, e também reparei que certas pessoas simplesmente não relaxam nem percebem que estão sentados ao lado de menores de 30. 

5 comentários:

Joana Pantufas disse...

tb quero um joão que se certifique que tou bem!! *.* awsome!!! brutalisssimo!

BioSpider disse...

bem, como hei-de eu mostrar o gozo que me dá ler mais uma das tuas obras...? =)

pah, como já é costume propões-me uma história simples, tamanho q.b. (pequeno, mas lindo), os olhos deliciam-se com este "doce", que até sabor e aroma parece ter... eheh

e mais uma vez, sentimos que estamos lá também, uns sendo o João, querendo ser aquele rapaz preocupado com uma rapariga bela, outras a Francisca, querendo ser aquela rapariga a quem o tal rapaz especial se dirige com palavras doces... =)

Resumindo: divinal!!!

Rita Graça disse...

Quando cheguei à parte dos dois indíviduos que vinham a falar o meu cérebro gritou: Horas antropológicas!!!

Mas afinal não.

Hmpf.

Exijo um texto sobre horas antropológicas. Acho que já fazem parte da mitologia em que acreditamos.

Carina disse...

Eu também quero um texto sobre horas antropológicas =P


P.S. Gostei muito da história como gosto sempre =)

Salomé Gonçalves disse...

Eu não protagonizei nenhuma história envolvendo tal horário... Mas desafio aceite. ;D